“A cada dia que vivo; mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

(Carlos Drummond de Andrade)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Quero adormecer

   
Nunca mais reencontrei a paz, a placidez que me deixava quieta, apascentada.   Também não sei se desejo ela de volta, o rio só corre numa direção e as águas plácidas do meu rio ficaram para trás.   Verdade, gosto das águas revoltas, mas elas me deixam exausta, estou cansada e pensando em sair deste turbilhão, quero ao menos um pouquinho do refrigério da paz.   Quero sorrir tranquila, me sentir protegida, olhar as nervuras das pétalas orvalhadas, sentir sua delicadeza aveludada em minha pele, quero as cores suaves de rosa, de branco, de chá.  
   Chá!   Palavra que por sí só acalma, me lembra o dulçor das ervas frescas caídas no vapor das águas quentes.   Penso nos chás que tenho prazer em tomar e lembro dos sabores orientais da minha infância rodeada de exotismo de diversas partes do mundo...   E viva o Brasil, com sua diversidade de culturas!!!
   Vou para meu chalé de fábula e sinto o cheiro das especiarias, vejo o tom nacarado do tecido esvoaçante da cortina da janela, o cheiro de madeira invade a minha alma, as almofadas com seus quatro pendões, um em cada canto, suas cores vibrantes se espalham sobre o tapete de sisal crú que repousa displicente sobre o assoalho escuro, outras almofadas repousam tranquilas sobre o divã que fica de frente para a lareira onde o fogo bamboleira como se quisesse dançar ao ritmo de uma música árabe que se ouve ao fundo.   No aparador, uma gamela com algumas frutas parecem me convidar a mordê-las.   Me sinto cansada e as ignoro, preciso de um banho quente no ofurô.    Ligo a água quente para enchê-lo e enquanto ela cai fico olhando suas gotas que salpicam na madeira da banheira ovalada, deixo cair na água um liquido de cor delicada que exala um cheiro suave de mirra.   Observo o roupão muito branco, que me aguarda tranqüilo sobre o gancho da parede de madeira.   Suspendo os cabelos negros e prendo-os num palito chinês de madeira avermelhada, desabotôo o vestido rosa e deixo que ele caia no chão, faço o mesmo com as outras peças e entro na água que me envolve como um abraço de um amante ávido e delicado, como muitas línguas que me invadem sem pudor, me recosto e relaxo.   Meus pensamentos viajam, querem encontrá-lo e eu quero fugir de ti, a tensão dos meus músculos cedem e dão lugar a uma moleza sonolenta, depois de longos minutos, me ergo relutante e me abrigo no roupão que tão paciente me esperou, apanho uma toalha igualmente branca e seco o resto do corpo, apanho as roupas que ficaram no chão e deixo-as num cesto de vime, saio em direção ao quarto, nele me espera uma cama alta e ampla, de lençóis brancos de cambraia cheirando a lavanda, os travesseiros brancos, adornado de bordado branco e rosa em minúsculas flores  que emolduram o monograma, parecem sorrir para mim, o róseo nacarado da cortina igual a da sala, deixa passar os raios cintilantes da lua que ilumina delicadamente todo o quarto, me livro do roupão e do palito chinês, me aninho na cama abraçando os travesseiros e fecho os olhos, sinto o cheiro da madeira de todo ambiente, o cheiro de canela se misturando, meus pensamentos vão ficando distantes, mas ainda trazem a tua imagem, perco o sentido do ambiente, do meu corpo, de mim...   Adormeço.


D. Trugillo.

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