“A cada dia que vivo; mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

(Carlos Drummond de Andrade)

sexta-feira, 18 de março de 2011

Amanhecer

   A vida amanhece, os pássaros cantam lá fora, o cheiro de verde penetra o quarto, depois de uma noite conturbada, ergo meu corpo ainda cansado, apesar de o sol já revelar seus primeiros raios, caminho para o banho e sinto a água morda tocar meus ombros, meus cabelos, fecho os olhos e me sinto inteira por dentro.  
   É como o despertar de um sonho ruim, o coração ainda dói, mas minha alma tem um fogo que arde e anseia por derreter a geleira da solidão.   Nunca tive medo de viver para não sofrer, ao contrário, prefiro pagar com dor a não saber o gosto da vida.   Quero dela cada sabor, todo calor, todo prazer e toda dor que ela tiver para me dar.
   Voce me convidou para me perder de viver em ti, te trago em mim, mas sei que deixei em ti as minhas marcas, meus sabores, meu calor, deixei em ti muito de mim, não sou só eu que trago as tuas marcas, sei o peso que tem o selo que gravei na tua alma, levarás contigo e eu te levarei comigo.   Mas mesmo ficando as marcas, o amor é como um quadro antigo, que precisa de retoques, de reparos para não descorar.    Sei que as falhas nas laterais da tela são o que caracterizam sua autenticidade, mas o quadro em si precisa de manutenção, de ser preservado, de ser guardado com zelo para o deleite de seu dono.     O proprietário que não cuida do que tem, logo não terá mais uma obra de arte.
   Enquanto meus pensamentos viajam nessas idéias, meu banho termina, as tarefas cotidianas me esperam e logo dou cabo delas, enquanto penso na notícia que tive a noite, ela me enche o coração de esperança, será uma nova perspectiva?   Não sei, mas neste momento da vida seria realmente bom esquecer que tenho coração, me ocupar de algo inusitado...   Se tiver que ser, que venha, estarei esperando; e que o coração adormeça num sono profundo, para despertar muito mais tarde, refeito.
   Não vou seguir meus impulsos, não sou caçadora para ir atrás de ninguém, sou a fêmea, a caça, a presa e se quiser me manter, que cuide.
   Depois de perder as penas e ficar tanto tempo no ninho, talvez seja hora de a águia alçar vôo para longe.   Talvez.   Sei que ela está presa ao ninho, que esteve feliz nele, construído de pêlos de urso, no alto do despenhadeiro de onde se avista o mar.   Ela pensa...   Seu desejo ainda é mergulhar no mar, sentir o mar, ser envolvida pelo mar...   Ela o olha e ele ainda a encanta.

D. Trugillo.

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