“A cada dia que vivo; mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade.”

(Carlos Drummond de Andrade)

sábado, 26 de março de 2011

Migalhas


Migalhas 

(Erasmo Carlos)


Sinto muito
Mas não vou medir palavras
Não se assuste
Com as verdades que eu disser

Quem não percebeu
A dor do meu silêncio
Não conhece
O coração de uma mulher

Eu não quero mais ser
Da sua vida
Nem um pouco do muito
De um prazer ao seu dispor

Quero ser feliz
Não quero migalhas
Do seu amor
Do seu amor...

Quem começa
Um caminho pelo fim
Perde a glória
Do aplauso na chegada

Como pode
Alguém querer cuidar de mim
Se de afeto
Esse alguém não entende nada

Não foi esse o mundo
Que voce me prometeu
Que mundo tão sem graça
Mais confuso do que o meu

Não adianta nem tentar
Maquiar antigas falhas
Se todo o amor
Que voce tem pra me oferecer
São migalhas, migalhas...



sábado, 19 de março de 2011

Amnésia: plástica da alma.

   Penso nas coisas que fizemos juntos, me sinto tão idiota que dói.   Como pude desejar todas aquelas coisas?   Não sei, mas estou me sentindo tão pequena de lembrar de tudo aquilo.   Penso e não sei como pude.   Como fui tola!   Só usada, pensando que tinha alguma coisa a mais.   Fico pensando em como pude ver encanto em tudo aquilo, como fiquei envolvida e desejei cada coisa?   Sinto-me péssima, promíscua.   A que voce procurava apenas quando queria safadeza e ponto.   Como consegui acreditar que havia amor?   Que tinha alguma importância?  
   Cada lembrança que tenho agora me faz sentir vexada, como acreditei que tinha beleza eu não sei, mas agora tudo me parece tão negro, que amarga meu coração.   Queria dormir e esquecer, nunca mais lembrar de nada, tirar essa marca que me queima inteira.   Não sei como será olhar para voce agora, não sei como vai ser ouvir tua voz ou sentir teu cheiro, só sei que as lembranças estão me roendo como ácido, não sei se conseguirei ficar perto de você outra vez sem me sentir mal.  
   Queria dormir esta noite e amanhã, acordar sem nenhuma lembrança de tudo o que fizemos, mas sei que essas lembranças vão me atormentar pelo resto da vida.   Será como uma grande cicatriz no rosto, o tipo de coisa impossível de ser ignorada.   Só mesmo uma amnésia funcionaria como uma cirurgia plástica da alma.

D. Trugillo.

Nem todos sabem sonhar...

   A segunda manhã tem uma serenidade que não consigo compreender, lá fora tenho a luz, mas os raios não se fazem presente, o sol parece em dúvida se quer ou não se erguer em sua plenitude, a vida está mansa como uma felina que dorme.   As vozes de Elis, Adoniran e outros ecoam em meus ouvidos e meu coração bate confuso, mas plácido, torpe até.   A casa está vazia de outras pessoas, mas não me sinto só, dentro de mim tenho muitas mulheres, sou eu, me fazem complexa sem deixar de ser simples.
   A capacidade de adaptação está cada vez maior, como se fosse a confirmação das palavras de Martin Luther King se confirmando, estou acostumando a ser sozinha.   Claro, existem os cortes, mas até com eles a gente se acostuma e chegará o momento em que serão apenas cicatrizes que a gente só lembra quando toca.  
   Não posso dizer que seja simples, fácil, não é, mas ao longo dos anos tenho sido treinada para ficar só e até que não é ruim.   Sei que estou permitindo que se forme uma geleira em meu coração, mas virá o tempo de quebrá-la.   O tempo virá, e vai me encontrar refeita.   Pode crer!
   Como tudo muda!   Lá fora já tenho os raios de sol e voce continua testando os meus limites. (risos)   Os limites são exatamente o fim das coisas, é quando não se suporta mais e as defesas começam a funcionar.   O tempo...   Já não tenho pressa de nada, estou descobrindo do que sou capaz.   Sem chuva não existem flores para serem colhidas e tu te esqueces do tempo de regar, contudo o deserto tem outras belezas que não são para serem divididas e a areia acumulada em meu coração esconde os seus segredos, suas surpresas e belezas.
   Quero compor a minha história com mais cores, e como diz a canção: “Cada ser em si carrega o dom de ser capaz; de ser feliz”.   Sim, tens razão, sou uma sonhadora, mas os sonhos nos dão conhecimento de coisas que pessoas áridas que não sabem sonhar jamais conhecerão, porque sequer cogitam que exista.   São pessoas que não sabem o valor de ver o show de um grande cantor, que preferem comprar a coleção completa e ficar ouvindo com um copo de wisky nas mãos enquanto queimam os pulmões com muitos cigarros, cercados de nenhuma magia.    Não se pode ensinar alguém a sonhar...   Eu sonho!   A realidade é para todos, os sonhos são uma dádiva para privilegiados.

D. 
trugillo.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Amanhecer

   A vida amanhece, os pássaros cantam lá fora, o cheiro de verde penetra o quarto, depois de uma noite conturbada, ergo meu corpo ainda cansado, apesar de o sol já revelar seus primeiros raios, caminho para o banho e sinto a água morda tocar meus ombros, meus cabelos, fecho os olhos e me sinto inteira por dentro.  
   É como o despertar de um sonho ruim, o coração ainda dói, mas minha alma tem um fogo que arde e anseia por derreter a geleira da solidão.   Nunca tive medo de viver para não sofrer, ao contrário, prefiro pagar com dor a não saber o gosto da vida.   Quero dela cada sabor, todo calor, todo prazer e toda dor que ela tiver para me dar.
   Voce me convidou para me perder de viver em ti, te trago em mim, mas sei que deixei em ti as minhas marcas, meus sabores, meu calor, deixei em ti muito de mim, não sou só eu que trago as tuas marcas, sei o peso que tem o selo que gravei na tua alma, levarás contigo e eu te levarei comigo.   Mas mesmo ficando as marcas, o amor é como um quadro antigo, que precisa de retoques, de reparos para não descorar.    Sei que as falhas nas laterais da tela são o que caracterizam sua autenticidade, mas o quadro em si precisa de manutenção, de ser preservado, de ser guardado com zelo para o deleite de seu dono.     O proprietário que não cuida do que tem, logo não terá mais uma obra de arte.
   Enquanto meus pensamentos viajam nessas idéias, meu banho termina, as tarefas cotidianas me esperam e logo dou cabo delas, enquanto penso na notícia que tive a noite, ela me enche o coração de esperança, será uma nova perspectiva?   Não sei, mas neste momento da vida seria realmente bom esquecer que tenho coração, me ocupar de algo inusitado...   Se tiver que ser, que venha, estarei esperando; e que o coração adormeça num sono profundo, para despertar muito mais tarde, refeito.
   Não vou seguir meus impulsos, não sou caçadora para ir atrás de ninguém, sou a fêmea, a caça, a presa e se quiser me manter, que cuide.
   Depois de perder as penas e ficar tanto tempo no ninho, talvez seja hora de a águia alçar vôo para longe.   Talvez.   Sei que ela está presa ao ninho, que esteve feliz nele, construído de pêlos de urso, no alto do despenhadeiro de onde se avista o mar.   Ela pensa...   Seu desejo ainda é mergulhar no mar, sentir o mar, ser envolvida pelo mar...   Ela o olha e ele ainda a encanta.

D. Trugillo.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Conflito

   A s vezes a bandida da vida nos prega peças, é o que ela está fazendo agora comigo.   É como se houvessem dois anjos, o anjo bom e o anjo mau e ambos tivessem um papel a desempenhar, o anjo bom dormiu e o anjo mau está mais desperto do que nunca.   Até que nem é uma comparação tão justa assim, afinal o anjo bom não é tão bom assim e o anjo mau não é realmente mau.   São as trapaças da vida, mas como criatura rebelde que sempre fui, é bem capaz que o meu coração travesso encontre um terceiro caminho e o meu cérebro o dome e o conduza por um quarto, onde a sensatez seja maior, onde não haverão as cores, mas certamente terei o branco da paz.  
   Paz, estou necessitada dela, de um pouco de trégua, afinal, além de dos anjos, do coração e da razão, existem outros fatores, as garras negras da morte que deixou muitas e profundas marcas que levarei para sempre e as dificuldades que estão mais acentuadas a cada dia para o bem viver.   Parece piada, mas tudo resolve acontecer no mesmo momento, quando se deixou tudo para ser resolvido mais  tarde por falta de opção melhor e o mais tarde não quer mostrar a solução, mas eu renascerei tantas vezes quantas forem necessárias,   
   O gosto que sinto é amargo, mas depois da meia noite a tendência é clarear e certamente sentirei outros sabores.

D. Trugillo.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Quero adormecer

   
Nunca mais reencontrei a paz, a placidez que me deixava quieta, apascentada.   Também não sei se desejo ela de volta, o rio só corre numa direção e as águas plácidas do meu rio ficaram para trás.   Verdade, gosto das águas revoltas, mas elas me deixam exausta, estou cansada e pensando em sair deste turbilhão, quero ao menos um pouquinho do refrigério da paz.   Quero sorrir tranquila, me sentir protegida, olhar as nervuras das pétalas orvalhadas, sentir sua delicadeza aveludada em minha pele, quero as cores suaves de rosa, de branco, de chá.  
   Chá!   Palavra que por sí só acalma, me lembra o dulçor das ervas frescas caídas no vapor das águas quentes.   Penso nos chás que tenho prazer em tomar e lembro dos sabores orientais da minha infância rodeada de exotismo de diversas partes do mundo...   E viva o Brasil, com sua diversidade de culturas!!!
   Vou para meu chalé de fábula e sinto o cheiro das especiarias, vejo o tom nacarado do tecido esvoaçante da cortina da janela, o cheiro de madeira invade a minha alma, as almofadas com seus quatro pendões, um em cada canto, suas cores vibrantes se espalham sobre o tapete de sisal crú que repousa displicente sobre o assoalho escuro, outras almofadas repousam tranquilas sobre o divã que fica de frente para a lareira onde o fogo bamboleira como se quisesse dançar ao ritmo de uma música árabe que se ouve ao fundo.   No aparador, uma gamela com algumas frutas parecem me convidar a mordê-las.   Me sinto cansada e as ignoro, preciso de um banho quente no ofurô.    Ligo a água quente para enchê-lo e enquanto ela cai fico olhando suas gotas que salpicam na madeira da banheira ovalada, deixo cair na água um liquido de cor delicada que exala um cheiro suave de mirra.   Observo o roupão muito branco, que me aguarda tranqüilo sobre o gancho da parede de madeira.   Suspendo os cabelos negros e prendo-os num palito chinês de madeira avermelhada, desabotôo o vestido rosa e deixo que ele caia no chão, faço o mesmo com as outras peças e entro na água que me envolve como um abraço de um amante ávido e delicado, como muitas línguas que me invadem sem pudor, me recosto e relaxo.   Meus pensamentos viajam, querem encontrá-lo e eu quero fugir de ti, a tensão dos meus músculos cedem e dão lugar a uma moleza sonolenta, depois de longos minutos, me ergo relutante e me abrigo no roupão que tão paciente me esperou, apanho uma toalha igualmente branca e seco o resto do corpo, apanho as roupas que ficaram no chão e deixo-as num cesto de vime, saio em direção ao quarto, nele me espera uma cama alta e ampla, de lençóis brancos de cambraia cheirando a lavanda, os travesseiros brancos, adornado de bordado branco e rosa em minúsculas flores  que emolduram o monograma, parecem sorrir para mim, o róseo nacarado da cortina igual a da sala, deixa passar os raios cintilantes da lua que ilumina delicadamente todo o quarto, me livro do roupão e do palito chinês, me aninho na cama abraçando os travesseiros e fecho os olhos, sinto o cheiro da madeira de todo ambiente, o cheiro de canela se misturando, meus pensamentos vão ficando distantes, mas ainda trazem a tua imagem, perco o sentido do ambiente, do meu corpo, de mim...   Adormeço.


D. Trugillo.

sexta-feira, 11 de março de 2011

Desejo de colo...




Sinto uma vontade imensa de chorar, sinto-me péssima, muita dor de cabeça, uma sensação de impotência horrível.   Hoje precisei de um amigo, mas que ironia...   Não apareceu,
   Imagino que sejam ocasiões assim que nos levem a fazer coisas que não tínhamos a intenção de fazer, parece que tudo nos conduz naquela direção, mas feliz ou infelizmente hoje faltou a oportunidade.
   Não sei o que está acontecendo comigo, é uma sensação de insatisfação que está me devorando, queimando meus olhos, que fica estrangulada na garganta, um aperto que fica no coração que parece físico, talvez até seja, talvez ele se contraia e se aperte, só sei que dói de verdade.
    Então, só me resta pedir a Papai do Céu que me pegue no colo, me afague e limpe este sentimento do meu peito.   Que Ele me faça voltar a sorrir como sempre fiz.


D. Trugillo.

Himalaya

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